CEO de tecnologia do imobiliário defende que Inteligência Operacional antecede adoção da IA

Especialista aponta que processos, governança de dados e documentação ganham relevância à medida que ferramentas de Inteligência Artificial avançam no setor

A rápida incorporação de ferramentas de Inteligência Artificial (IA) ao mercado imobiliário tem levado empresas a rever processos internos, modelos de gestão e estruturas operacionais. Durante entrevista ao podcast Modo Avião, do Imobi Report, o CEO da Jetimob, Victorio Venturini, destacou que a adoção de IA depende, antes, de uma base operacional estruturada. O conceito, chamado por ele de Inteligência Operacional (IO), envolve a organização de processos, dados e governança para que a tecnologia possa ser aplicada de forma integrada à operação.

O fim das barreiras operacionais e a revisão dos processos

Nos últimos anos, o setor imobiliário passou por diferentes etapas de transformação tecnológica, nesta primeira onda de inteligência artificial em imobiliárias e incorporadoras. A digitalização de documentos, a adoção de CRMs e a utilização de canais digitais de atendimento alteraram a forma como imobiliárias e corretores trabalham. Agora, o avanço da IA amplia a automação de atividades operacionais.

Segundo Venturini, tecnologias de transcrição automática, processamento de linguagem natural e integrações via APIs já permitem que informações sejam registradas em sistemas sem necessidade de preenchimento manual. “O CRM passa a não criar atrito, não se tornar necessário que o corretor seja um preenchedor de banco de dados.”

Como exemplo, ele menciona o cenário em que o corretor registra informações de uma visita por meio de um áudio enviado durante o deslocamento entre compromissos. A tecnologia converte a fala em texto, interpreta o conteúdo e atualiza automaticamente os sistemas utilizados pela imobiliária. Esse movimento altera uma das justificativas mais recorrentes do mercado em relação à gestão comercial: a dificuldade de manter dados atualizados nos CRMs. “Todas as bengalas serão removidas. Em dois ou três anos as bengalas serão removidas.”

Com a redução do esforço operacional, a atenção das empresas passa a se concentrar na qualidade dos processos e na capacidade dos profissionais de gerar valor durante o relacionamento com clientes.

De pessoas, processos e tecnologia para processos, tecnologia e pessoas

A transformação tecnológica também modifica a lógica tradicional de estruturação das operações. Historicamente, a gestão empresarial foi orientada pela sequência: “pessoas, processos e tecnologia”. Para Victorio, a expansão da IA inverte essa lógica. “Agora a gente tem processos. A gente precisa ter processos muito bem mapeados, muito bem estabelecidos. Eu vou colocar tecnologia e depois eu vou colocar as pessoas.”

Nesse contexto, a Inteligência Operacional passa a representar o trabalho de documentação, padronização e monitoramento das atividades da empresa antes da implementação de automações. A IA atua como um acelerador daquilo que já existe dentro da organização.

“A inteligência artificial potencializa tudo. Ela potencializa a organização e potencializa a desorganização.”

A preocupação com governança de dados também ganha relevância. À medida que sistemas passam a depender de grandes volumes de informações para gerar análises e recomendações, a qualidade, centralização e disponibilidade desses dados tornam-se fatores estratégicos.

Assim, as imobiliárias podem assumir um papel de centralização das informações relacionadas à jornada de moradia do cliente, incluindo aluguel, compra, venda, investimento e outros serviços associados. “A imobiliária vai ter um papel mais orquestrador.”

A dispersão de dados em múltiplas plataformas pode limitar a capacidade das empresas de utilizar recursos de personalização e automação em larga escala.

Organizações agênticas e o novo organograma das empresas

Outra mudança apontada envolve a composição das equipes. Com o avanço dos chamados agentes de IA, empresas passam a incorporar sistemas autônomos em atividades operacionais, atendimento inicial, suporte e análise de informações.

Venturini utiliza o conceito de “organizações agênticas” para descrever estruturas nas quais humanos e agentes digitais passam a coexistir dentro dos processos corporativos. “Agora tu tem dentro do organograma da empresa pessoas e agentes.”

Esses agentes assumem tarefas específicas, enquanto profissionais humanos permanecem responsáveis pela supervisão, tomada de decisão e relacionamento com clientes. Na própria Jetimob, um agente chamado “N0” atua como primeira camada de suporte, sendo alimentado continuamente por informações de produto e supervisionado pela equipe. O modelo amplia a capacidade operacional sem eliminar a necessidade de profissionais especializados.

Inteligência Operacional como diferencial competitivo

A discussão sobre Inteligência Operacional surge em um momento em que ferramentas de IA se tornam mais acessíveis e passam a integrar soluções já utilizadas pelo mercado imobiliário.

A diferenciação entre empresas tende a migrar da tecnologia em si para a capacidade de estruturar processos, governar dados e desenvolver equipes aptas a operar em ambientes cada vez mais automatizados. Nesse cenário, funções ligadas à documentação de processos, indicadores de desempenho, governança e Business Operations ganham espaço dentro das organizações.

“As empresas têm que buscar inteligência operacional.”

À medida que a tecnologia se torna amplamente disponível, a preparação operacional passa a ser apontada como um dos fatores determinantes para a capacidade das imobiliárias de incorporar novas ferramentas e transformar ganhos tecnológicos em resultados de gestão.

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