Na segunda matéria da série especial sobre o que os corretores valorizam nas imobiliárias, falamos sobre a relevância da ambiência na retenção dos profissionais. O conceito de ambiência refere-se ao conjunto de elementos percebidos que impactam no comportamento humano dentro de um determinado espaço. Isso inclui relacionamento com colegas e líderes, mas também engloba o sentimento em relação a missão, visão e valores da empresa. Em suma, é o que define se a pessoa se sente, ou não, confortável no ambiente de trabalho. E na pesquisa Panorama do Corretor Imobiliário 2026, o aspecto “ambiente harmonioso” atingiu média 4,65 em uma escala de importância de 1 a 5. E entre 17 aspectos, ficou na 6ª posição, acima até mesmo da premiação financeira.
Para a sócia e VP de operações da CUPOLA, Renata Maciel, esse resultado reflete uma tendência no mercado de trabalho, que é o profissional reconhecer que tem outras necessidades além do dinheiro. Mais do que ferramentas e comissões, a saúde mental e o apoio ao desenvolvimento contínuo são fundamentais para a retenção do profissional. E este ambiente acolhedor tem mais peso quando o profissional vem de experiências insatisfatórias. “É natural que o profissional valorize quem o acolhe”, Renata declara.
A ambiência é uma preocupação estratégica da RE/MAX Pater, de Brasília (DF). Para reconstruir a cultura da empresa, a maior parte do time de vendas foi desligada. A sócia-fundadora da franquia, Rachel Pena, relata que a reestruturação ocorreu em junho de 2023. Na ocasião, 50 corretores foram removidos do quadro, restando apenas 6 profissionais alinhados com a visão e os valores idealizados para o negócio. No ano da mudança, houve uma queda de 20% no faturamento. Porém, nos anos seguintes, a empresa registrou crescimentos sucessivos de 85% e 112%. “Para reformular a cultura, tivemos que reestruturar a equipe. Hoje temos 45 corretores comprometidos com nosso propósito”, afirma Rachel.
A construção de um ambiente harmonioso depende do equilíbrio entre expectativas e realidade. Isso inclui compreender que profissionais carregam qualidades e limitações, mas também a consciência de que não é possível mudar as pessoas. Segundo Solange Reis, especialista em desenvolvimento humano e liderança no mercado imobiliário, a mudança e a adaptação no trabalho partem estritamente do autoconhecimento individual e da adequação às regras do ambiente corporativo. Solange lembra que habilidades técnicas são simples de treinar, enquanto padrões comportamentais exigem a gestão de limitações pessoais. “O profissional deve se adaptar à realidade da imobiliária, e não esperar que a empresa se molde às suas vontades”, alerta Solange.
Sócio na RE/MAX Pater, o corretor Pedro Abreu entende que o profissional passa a maior parte da semana dedicado ao trabalho. Por isso, se o ambiente não incluir meios para crescimento e estímulos para melhores resultados, a tendência é que a motivação do profissional caia. Ele acrescenta que, embora importante, o ganho financeiro não pode ser tratado como diferencial, pois é um aspecto oferecido por qualquer outra empresa. “O dinheiro vai ser ganho, de qualquer maneira, mas é a felicidade de pertencer que faz o corretor vestir a camisa”, diz Pedro.
A ambiência depende de conversas e decisões difíceis
Solange orienta que a construção de um ambiente harmonioso começa quando gestores e corretores abandonam suposições. O líder precisa exercer comunicação direta em conversas difíceis, aplicando com a equipe a mesma empatia usada no atendimento a clientes. Isso exige feedbacks técnicos regulares e encontros periódicos para alinhamento de expectativas, e até mesmo desabafar sobre a pressão das metas comerciais. Assim é possível reduzir sintomas tóxicos, como fofocas e queda na produtividade, garantindo a retenção da equipe. “O ambiente harmonioso é definido como uma estrutura de respeito, troca e maturidade comportamental; não deve ser confundido com zona de conforto”, Solange salienta.
Rachel conta um episódio que ilustra este cenário. Ela precisou desligar sua principal corretora por incompatibilidade com a cultura da empresa. A profissional gerou R$ 600 mil em comissões no ano anterior, 60% da meta anual. Para recompor o faturamento esperado, Rachel propôs reduzir o objetivo do ano. No entanto, o time rejeitou a revisão para baixo, assumiu um compromisso coletivo e superou a meta anual em 10%. “O resultado mostra que o alinhamento cultural e a união do grupo têm impacto nos resultados”, Rachel comenta.
O caminho para um ambiente harmonioso
Segundo Renata, a construção de um ambiente harmonioso apoia-se em três pilares, sendo eles a clareza, a liderança ativa e o diálogo. Primeiramente, é preciso definir regras claras desde o início, fixar metas transparentes e evitar ruídos de comunicação. Em segundo lugar, o líder deve atuar como facilitador, orientando a execução do trabalho, viabilizando novos negócios, mediando conflitos pontuais e garantindo os resultados combinados. Por fim, deve-se abrir espaço para debates construtivos, manter uma escuta ativa e fortalecer a cooperação interna.
No entanto, recrutar e reter talentos exige alinhar as metas da empresa aos objetivos do profissional. De acordo com Renata, a alta performance deve ser um propósito mútuo. Por isso, a imobiliária deve oferecer ferramentas adequadas e criar incentivos financeiros ajustados para alavancar o desempenho do corretor. “A ambiência é sustentada por valores compartilhados e objetivos alinhados”, Renata conclui.
A primeira matéria da série trata da importância da marca da imobiliária para os corretores. Se inscreva para ter acesso às próximas reportagens da série. E aproveita também para conferir o relatório completo do Panorama do Corretor Imobiliário 2026.
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