Desligamentos burocráticos, trocas de titularidade morosas e filas que duram horas. Todos esses problemas são conhecidos por imobiliárias em todo o Brasil. O que muda agora é que o setor está deixando de sofrer isolado. Em seu trabalho de campo, o sócio e diretor de consultoria da CUPOLA, Dioner Segala, observa que em algumas cidades, imobiliárias se juntam em associações ou redes para pleitear canais diretos com as companhias de água e energia.
A sócia da Afortiori Imóveis e presidente da UNA Imóveis Conectados de Curitiba (PR), Elza Rocha Loures, relata o movimento conjunto de imobiliárias de Curitiba e região para negociar diretamente com a diretoria da Companhia Paranaense de Energia (Copel) e da Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar). Tudo começou em meados de junho, em um jantar promovido pela Confraria Imobiliária de Curitiba, presidida pelo fundador da Canto Imóveis, Carlos Eduardo Canto. Na ocasião, os gestores perceberam que todas as imobiliárias tinham problemas com as concessionárias. “Decidimos nos unir para cobrar uma solução que beneficie todo o mercado imobiliário de Curitiba e região”, Elza declara.
O resultado desse movimento coletivo foi a criação do Espaço Sanepar, canal localizado em Curitiba, voltado a atender imobiliárias, construtoras, condomínios e clientes com consumo superior a 400 m³. A unidade, que iniciou a operação na segunda (03/08), concentra a tramitação de ligações, desligamentos e acertos finais em grande volume, eliminando a exigência de presença física dos consumidores em agências convencionais. O projeto prevê a extensão do atendimento ao interior do estado via e-mail e WhatsApp, garantindo agilidade e autonomia operacional às empresas.
O sócio-diretor da Tavarnaro Consultoria e presidente do Secovi-PR, Carlos Ribas Tavarnaro, frisa que a criação do Espaço Sanepar surgiu após uma abordagem conjunta feita durante um jantar da Confraria Imobiliária, reunindo diretores da concessionária e lideranças do setor. A mobilização envolveu Secovi-PR, Creci-PR, Confraria Imobiliária, ADEMI, Sinduscon-PR, ADPI, Rede UNA Imóveis Conectados e CVI. Carlos Ribas Tavarnaro ressaltou a prontidão e boa vontade da diretoria da Sanepar, que atendeu ao pleito em tempo recorde. “A iniciativa demonstrou a eficiência do diálogo institucional para resolver gargalos históricos de atendimento”, salienta Carlos.
Outras soluções pelo Brasil
Em Belo Horizonte (MG), o diretor na Malta Imóveis, João Henrique Malta, diz que sua imobiliária prioriza a captação de apartamentos com consumo de água incluso no condomínio, reduzindo a necessidade de lidar com a Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa). Para as demandas com a Companhia Energética de Minas Gerais (CEMIG), a imobiliária mantém uma equipe dedicada ao deslocamento presencial nos postos centrais para resolver pendências. Além disso, a empresa atua na mediação direta com os proprietários para alinhar prazos e recolher documentos. “O objetivo é absorver o desgaste operacional e preservar a agilidade das locações”, João comenta.
Já em Bauru (SP), o diretor na Concreto Imóveis, Guilherme Cury, comenta que a empresa abre chamados internos para acompanhar cada transferência de titularidade ou desligamento até sua conclusão. A imobiliária também passou a oferecer um serviço pago de intermediação por R$ 49,90 aos inquilinos para realizar a ligação e desligamento de fornecimento, transformando o entrave em fonte de receita. Para demandas complexas de proprietários junto às concessionárias, também são cobradas taxas específicas de assessoria. “Transformamos uma dor em fonte de receita, mas também temos maior controle no processo de solicitar ligação ou desligamento de água e energia”, Guilherme esclarece.
Elza explica que na Afortiori há um protocolo na entrega de chaves, orientando o locatário sobre a necessidade de comparecimento presencial às concessionárias para solicitação de ligação ou desligamento no fornecimento de água e energia. A empresa de Curitiba também reforçou o acompanhamento interno das faturas para evitar o acúmulo de cobranças durante a desocupação.
Dioner informa que também há ferramentas que procuram organizar a gestão dos pagamentos, mas que esbarram na falta de acesso aos sistemas das concessionárias. Outras imobiliárias, especialmente as que focam em locação de apartamentos, trabalham com desligamentos ao final de cada locação e ligações novas, diretamente no nome do locatário, assim que o contrato de locação é assinado. “É fundamental que a imobiliária organize os processos e um time dedicado a controlar os encargos locatícios, para evitar erros e retrabalho da equipe”, Dioner orienta.
Desafios semelhantes por todo o país
Um dos grandes gargalos na locação de imóveis são as trocas de titularidade nas concessionárias de energia e água. O sócio e diretor de consultoria da CUPOLA, Dioner Segala, explica que isso ocorre justamente porque a maior parte das concessionárias não têm canais específicos para atender as imobiliárias, tornando qualquer solicitação em um processo moroso, manual, e sujeito a erros. Isso impacta diretamente o time administrativo, que fica refém dos clientes locatários e proprietários fornecerem procurações ou realizarem eles mesmos esses serviços. Há, também, o problema de gestão de inadimplência desses encargos. As imobiliárias nem sempre conseguem ter acesso aos pagamentos efetuados e não efetuados, tornando o relacionamento com os clientes mais desafiador. “As dificuldades são percebidas em desligamentos, trocas de titularidades, ligações e quaisquer mudanças em função de um novo contrato ou de uma rescisão”, aponta.
Elza Rocha Loures relata que após as privatizações da Copel e da Sanepar, houve aumento da burocracia no atendimento às imobiliárias. O fluxo operacional das companhias exige deslocamentos presenciais em diversos casos, gerando morosidade ao ligar e desligar o fornecimento. As filas para resolver pendências administrativas das faturas chegam a durar quatro horas. Em um caso citado, a reposição de um medidor de energia levou quatro dias. Também houve registros de meses de atraso para a retirada de hidrômetros após desocupação, gerando cobranças indevidas que foram assumidas pela imobiliária. “Essa rigidez burocrática cria atritos desnecessários entre locadores, locatários e imobiliárias”, Elza afirma.
Já em BH, João comenta que, apesar da assinatura digital comprovando a veracidade dos documentos, a Copasa exige contratos e procurações impressos em papel timbrado. Além disso, a Copasa vincula os débitos pendentes ao endereço do imóvel em vez do CPF do devedor, impedindo novas locações até a quitação das dívidas. Em relação à CEMIG, ele relata que a concessionária encerrou seu posto no bairro Barreiro, próximo à imobiliária, forçando o deslocamento por 10 km até a unidade de Contagem, na região metropolitana de BH. A CEMIG também passou a requerer documentos pessoais dos locadores, gerando atritos operacionais e riscos de conformidade com a LGPD. “Esse cenário gera retrabalho constante e atrasos significativos na liberação de novos contratos”, João observa.
A situação não é diferente em Bauru. Guilherme diz que o Departamento de Água e Esgoto (DAE) também exige a presença física do usuário, com procuração do proprietário, para alteração de titularidade. Para evitar transtornos e manter a conformidade com a LGPD, a imobiliária mantém a fatura no nome do locador, monitorando o pagamento das contas pelo inquilino para evitar inadimplência. Já a CPFL Energia inclui cobranças de empréstimos pessoais nas faturas de energia, gerando confusões na apuração de débitos vinculados à locação. “A dívida deveria estar atrelada ao usuário, não ao imóvel. No entanto, a companhia dificulta nova ligação até que os débitos anteriores sejam quitados”, revela Guilherme.
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