Curitiba é normalmente reconhecida como uma cidade limpa e organizada. Mas isso não foi obra do acaso. Foi porque alguém resolveu conversar com as crianças.
“Curitiba é tão organizada”. Ouço isso com frequência de profissionais do mercado imobiliário que recebo por aqui e de gente que encontro viajando pelo Brasil. Limpa, planejada, organizada. A frase costuma vir com um ar de mistério, como se a cidade tivesse nascido assim. Não nasceu. E uma visita guiada ao Instituto Jaime Lerner, que abre as portas uma vez por mês, me ajudou a entender o porquê.
Lerner, um dos urbanistas mais influentes do mundo, foi três vezes prefeito de Curitiba e duas vezes governador do Paraná. Sua visão de cidade e, talvez mais raro, sua capacidade de tirá-la do papel explicam boa parte dessa reação de quem vem pra cá. Mas o que mais me marcou na visita foi outra coisa: o lugar que as crianças ocuparam nessa história.
Maio de 1972. Lerner decide fechar a Rua XV de Novembro para os carros e criar o primeiro calçadão do Brasil. Os comerciantes temiam perder clientes, e havia ameaça de protesto. A obra foi feita em um fim de semana, quando as lojas estavam fechadas. Quando ficou pronta, quem ocupou a rua foram os filhos de amigos e de funcionários, convidados para uma atividade ali. Difícil passar por cima de crianças brincando. A criança virou, literalmente, agente político. O calçadão hoje é modelo replicado pelo país. E, aos domingos, as crianças continuam por lá.
O segundo episódio é o programa Lixo que Não é Lixo, iniciado em 1989. Curitiba estava em vias de alcançar a capacidade máxima do aterro sanitário, numa época em que reciclagem era papo de bolha. Para ensinar a população a separar resíduos, a aposta não foi apenas em fiscalização ou em campanha para adultos. Foi nas escolas. Vieram os personagens da Família Folhas, desenhados por Ziraldo, e uma musiquinha viciante que terminava soletrada: SE-PA-RE. A criança aprendia na escola e levava a lição para casa. Educava os pais. Fiscalizava a lixeira da cozinha.
Foto: Jaime Lerner, então prefeito de Curitiba, com a primeira formação da Família Folhas (Arquivo da Prefeitura de Curitiba/SMCS, 1989)
Eu fui uma dessas crianças. Nos anos 90, vi a Família Folhas chegar à minha escola e aprendi a música. E, veja só, hoje moro em frente à mesma escola onde aprendi essa música. Dia desses, ouvi uma melodia conhecida pela janela: era a mesma Família, cantando a mesma música, reforçando a mesma mensagem, 30 anos depois. Não é à toa que as coisas são como são.
Qual o lugar da criança hoje?
Saí de lá com uma pergunta na cabeça: que lugar a criança ocupa na visão das cidades – e dos imóveis, incorporadoras e imobiliárias – hoje? Há um princípio do urbanismo, popularizado pelo ex-prefeito de Bogotá, Enrique Peñalosa: uma cidade boa para as crianças é boa para todo mundo. Para quem incorpora, a pergunta é se a criança está sendo pensada para além do espaço kids. Que convivência o projeto estimula? A calçada deixa ela ir sozinha à padaria? O térreo conversa com a rua, ou a criança cresce aprendendo que o mundo bom fica do lado de dentro do muro?
Para as imobiliárias, a provocação é outra. Todo mundo olha para o lead quente que chega hoje. Mas quem está “formando plateia”, a base de clientes que vai comprar daqui a 15, 20 anos? Lembro da Pantera, de Santo André, que tem a Terinha, mascote inspirada no símbolo da marca que encanta os pequenos. Parece detalhe. Mas num mercado em que a marca pesa cada vez mais para atrair clientes e talentos, não é.
A criança já influencia
E não é só sobre o futuro. Se o exemplo de Curitiba mostra que as crianças são capazes de mudar a relação de uma cidade inteira com a gestão do lixo, imagine o peso que tem na escolha da sua própria casa.
Segundo o DataZAP, 65% de quem busca imóvel tem filhos. Número de quartos, distância da escola, segurança, lazer: quase tudo passa por eles. Mudanças familiares como casamento, chegada de filhos ou divórcio motivam a compra de mais de metade das tais leads quentes.
E a família mudou. Em 2024, pela primeira vez, a guarda compartilhada superou a guarda exclusiva da mãe nos divórcios judiciais: 44,6% contra 42,6%, segundo o IBGE. Em 2014, eram 7,5%. Na prática, são duas casas que precisam de um quarto para a criança, às vezes também para os filhos do novo parceiro ou parceira. O apartamento com mais quartos, que antes abrigava a família de vários filhos, continua abrigando uma família numerosa. Só que mais diversa. Até a Família Folhas, repaginada em 2022, ganhou uma mãe solo.
A música da Família Folhas atravessou três décadas e ainda toca nas escolas. Neste Dia das Crianças, fica a pergunta: quem vai cantar a música da sua marca daqui a 30 anos?
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