Além da ferramenta: a cultura de IA nas imobiliárias

No mercado imobiliário, a adoção da inteligência artificial (IA) ainda enfrenta a barreira de uma visão limitada, onde a tecnologia é frequentemente percebida e usada como ferramenta isolada em vez de um pilar estratégico das empresas. Mudar essa percepção exige uma evolução cultural, que implica na revisão de processos internos, treinamento das equipes e a automatização de tarefas operacionais. Mudanças que só podem ocorrer se a “mentalidade de IA” for exemplo vindo das lideranças. 

O diretor de consultoria da CUPOLA, Dioner Segala, observa que imobiliárias, em geral, tratam a inteligência artificial como uma ferramenta pontual e não como uma tecnologia integrada à operação. Ele explica que há uma tentativa de adequar o processo atual à IA, sem uma preocupação clara de revisar e encontrar pontos de melhorias. “Com algumas exceções, ainda não há uma mentalidade de IA nas imobiliárias e, muito por conta disso, os donos de imobiliárias acabam se frustrando com essa tecnologia”, afirma.

A velocidade com que as IAs evoluem é alta e novas aplicações surgem todos os dias. O descompasso ocorre quando, ao se deparar com problemas nos processos ou operações, donos de imobiliárias e suas equipes ainda estão pensando “em modo analógico” o que  pode conduzir a soluções mais caras e mais lentas. O mais indicado neste novo cenário, segundo Dioner, é procurar entender como esse problema pode ser resolvido com IAs e automações em tecnologia. “Considerando que a IA é uma revolução em andamento, que evolui com muita velocidade, o risco de não desenvolver essa cultura de “AI FIRST” é de acabar ficando ultrapassada nos seus processos e tecnologia”, declara.

Diante de um problema, de acordo com Dioner, é preciso quebrar o paradigma da primeira pergunta. Em vez de se perguntar “Como eu resolvo isso?”, perguntar “Como IA pode me ajudar a resolver esse problema?”. Para isso, é preciso incentivar o time a se desenvolver na criação de prompts, “Não se trata de pedir para o time pesquisar no ChatGPT, mas procurar ativamente conhecimentos em ferramentas que possam ajudar a empresa a evoluir. Acredito que esse é o caminho”.

A onda das múltiplas IAs no mercado imobiliário

O diretor executivo de operações e expansão de negócios na Plaza, Marcos Kano, explica que a primeira onda da inteligência artificial no setor aconteceu em meados de 2024, com a chegada do chatGPT e outras ferramentas semelhantes, que democratizaram o acesso à essa tecnologia e possibilitaram o surgimento dos agentes de pré-atendimento. Mas em 2026, o setor vivencia a segunda onda de IA, relacionada aos múltiplos agentes conectados em uma única plataforma. “As imobiliárias que surfarem essa onda das múltiplas IAs podem ganhar o jogo do mercado imobiliário”, afirma.

Diante do cenário atual, muitas vezes, marcado por leads caros, equipes sobrecarregadas e corretores que passam o tempo “apagando incêndio” em vez de produzir, é fundamental compreender que a operação pode ser muito mais eficiente. Nesse sentido, de acordo com Kano, as imobiliárias precisam deixar de ver a IA como uma ferramenta isolada e adotá-la como um ecossistema integrado aos processos do negócio. A solução da Plaza, por exemplo, unifica cinco sistemas para gerenciar desde a captação de imóveis e distribuição omnichannel de leads até o atendimento administrativo e análises de crédito. “A operação não precisa ser mais pesada, ela precisa ser mais inteligente”.

As diversas IAs desenvolvidas pela Souza Gomes

O diretor de estratégia da imobiliária Souza Gomes de Juiz de Fora (MG), Diogo Souza Gomes, revela que a cultura de IA na sua empresa começou pelo básico, com uma ferramenta para ajudar o corretor a elaborar a descrição do imóvel. No entanto, hoje a empresa emprega IA em 17 frentes do negócio. Essa implementação bem-sucedida partiu do envolvimento direto da liderança, com Diogo se dedicando ao estudo e desenvolvimento de soluções de inteligência artificial para o negócio. Ciente de que a inovação precisa vir de cima para baixo, ele conduziu a transição cultural da equipe de forma estratégica, apresentando ferramentas prontas nas reuniões semanais, provando na prática como elas podem facilitar tarefas cotidianas. Diogo esclarece que seu foco nessas apresentações é demonstrar que a tecnologia não serve apenas à empresa, mas principalmente para alavancar a produtividade individual. “A IA poupa o tempo do funcionário para que ele produza melhor e tenha mais qualidade de vida”, declara.

Diogo explica que, com a adesão da IA, muitos processos e sistemas foram substituídos, levando à uma economia mensal de R$ 9,5 mil. Como exemplo dessa substituição, Diogo menciona o Trello, um organizador baseado no método Kanban que cobra cerca de R$ 90,00 por usuário no plano empresarial. A ferramenta de terceiros foi trocada por uma solução interna de IA, o “SG Fluxos”,  que gerencia todo processo de vendas, locação e prospecção. E o modelo próprio, disponível para os 60 funcionários da imobiliária, ainda apresenta funcionalidades específicas, que a ferramenta paga não possuí, como a inclusão de prazos de vencimento em cada proposta de locação.

Já para contornar os altos custos de plataformas oficiais de atendimento (como o Blip, que pode custar até R$ 6 mil dependendo do volume de atendimento), Diogo desenvolveu o “SG Atende”, um sistema próprio de atendimento automatizado. A solução unifica a comunicação dos setores de recepção, pré-atendimento e locação, oferecendo suporte contínuo com o auxílio de IA para interações fora do horário de plantão. Além de já contabilizar mais de 1,5 mil atendimentos validados, a solução estruturada gerou uma economia direta de mais de R$ 5 mil mensais para a imobiliária. “Utilizamos IA para melhorar nossa performance e diminuir nossos custos”, esclarece.

A implementação da IA na operação da Real Up

De acordo com o sócio da Real Up do Rio e mentor da CUPOLA, Fábio Müller, a mentalidade de IA da sua empresa foi fundamentada no princípio de que “nada está escrito em pedra” e na disposição de testar novas tecnologias para ganhar performance. Esse processo de amadurecimento ocorreu através da participação ativa em eventos do setor, onde a observação de grandes empresas e profissionais do mercado validou a necessidade de uma solução personalizada e sob medida, em vez de ferramentas genéricas. “Participando de eventos do setor, percebemos que os melhores estão sempre investindo em novas soluções. Foi num desses eventos, inclusive, que conhecemos o especialista que hoje nos ajuda a construir a nossa IA”, explica.

A inteligência artificial personalizada da Real Up, apelidada de RE, opera em quatro verticais estratégicas para maximizar a performance imobiliária: o Oráculo, que oferece suporte interno imediato sobre processos e estatutos; o SDR, que garante o pré-atendimento e agendamento de visitas em horários alternativos; o Reaquecimento, que recupera leads antigos de forma escalável; e a Atualização de Base, que valida a disponibilidade e os preços dos imóveis diretamente com os proprietários. “Essa quarta vertical é muito importante pois evita o gasto desnecessário com anúncios de imóveis que já foram vendidos ou que estão com preços desatualizados nos portais, otimizando o orçamento de marketing”, explica.

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