Faturamento  das bets chegou a 27% do MCMV em 2025 e acende alerta em incorporadoras

As apostas online tornaram-se um dos principais fatores de endividamento das famílias brasileiras em 2025, e isso tem impacto direto na análise de crédito para o mercado imobiliário. A inadimplência gerada pelas bets compromete a renda dos proponentes e prejudica seu rating bancário, dificultando o acesso à moradia.

Segundo balanço divulgado pela Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) do Ministério da Fazenda, as empresas de apostas online encerraram 2025 com uma receita bruta de R$ 37 bilhões. Em comparação, conforme os dados da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), no ano de 2025, o Minha Casa Minha Vida  movimentou um VGV 137,2 bilhões. Ou seja, a receita bruta das bets corresponde a aproximadamente 27% do VGV do MCMV. Coincidentemente, de acordo com dados do DataSenado, 52% dos apostadores recebem até dois salários-mínimos, justamente o público-alvo das faixas 1 e 2 do MCMV.

As apostas online já configuram o principal fator de endividamento das famílias brasileiras, superando o impacto dos juros e do crédito. Isso é o que revela o estudo realizado pela FIA Business School em parceria com o Ibevar. Entre 2011 e 2025, o coeficiente de impacto das apostas sobre a dívida doméstica atingiu 0,2255, valor que é quase o dobro da soma dos efeitos dos juros ao consumidor (0,0709) e do comprometimento do crédito sobre a renda (0,0440). O levantamento ainda destaca que cerca de 39,5 milhões de brasileiros utilizaram serviços de apostas no último ano, sendo que 19% comprometeram sua renda e 17% deixaram de pagar contas básicas para jogar.

No MCMV, o endividamento impacta a análise de crédito e reduz a capacidade de pagamento, uma vez que o comprometimento da renda bruta é orientado a 30%. A existência de débitos ativos diminui o crédito liberado pela Caixa Econômica Federal, exige entradas maiores, prejudica o rating financeiro e pode inviabilizar a aprovação do financiamento imobiliário. Para compreender este efeito na prática, o Imobi Report procurou a MRV, principal incorporadora no segmento do MCMV, mas a empresa preferiu não se manifestar sobre o assunto.

Apostas sob vigilância dos bancos

O diretor comercial da BRZ Empreendimentos, Anderson Morais, explica que, com acesso à movimentação das contas bancárias dos candidatos ao MCMV, a Caixa consegue identificar perfis que realizam pagamentos frequentes à plataformas de apostas. Esse comportamento recorrente sinaliza risco de endividamento e é utilizado como critério no processo de concessão de crédito habitacional. De todo modo, para aprovação, a instituição considera as dívidas dos últimos 3 meses, então mesmo os apostadores iniciantes e sem comprometimento de renda grave podem ser barrados. Isso significa que potenciais compradores do MCMV, em termos de renda, podem ter seu crédito restringido pelo histórico de apostas online. Um cenário que alonga a jornada de compra e a realização do negócio.

No setor privado, o Bradesco passou a integrar o histórico de gastos com apostas online em seus modelos de análise de risco e concessão de crédito. Com base em dados do Open Finance, o banco identificou que apostadores recorrentes apresentam uma probabilidade de inadimplência até 3,5 vezes maior do que a média. A instituição utiliza essas informações para ajustar limites de cartões e ofertas de empréstimos. E conforme relatos de correntistas, ao identificar pix para casas de apostas, o Bradesco orienta que seus clientes declinem da transação, apontando risco de perda financeira. Abordada pelo Imobi Report para comentar o impacto das bets, a empresa preferiu não se manifestar.

Bet não é investimento

Anderson acredita que há uma percepção equivocada sobre as apostas online. Com a validação de influenciadores famosos, bets são tratadas como investimento, quando, na verdade, casas de apostas não garantem rendimento ou qualquer retorno. A casa própria, por outro lado, representa segurança para milhões de brasileiros, sendo a principal construção de estabilidade e patrimônio familiar. Quando esse objetivo começa a ser comprometido por escolhas financeiras equivocadas, é necessário abrir o debate com responsabilidade. “Não se trata de proibir apostas ou estigmatizar quem joga, mas de esclarecer que a linha que separa entretenimento e comprometimento excessivo da renda é muito tênue”, observa.

Além disso, o vício em jogos é uma doença reconhecida pela OMS, registrada no Brasil com os CID 10-Z72.6 (mania de jogo e apostas) e CID 10-F63.0 (jogo patológico). Em 2025, o SUS contabilizou mais de 6 mil atendimentos presenciais relacionados a problemas com apostas. Vício este que é percebido em clientes submetidos à análise de crédito. Segundo Anderson, eles têm dificuldades em abandonar a rotina de apostas, mesmo quando este comportamento é justamente o que está reprovando seus pedidos de financiamento. “Sugerimos que eles parem com as apostas, pelo menos até a aprovação do crédito, mas há uma grande dificuldade. Eles não conseguem entender que estão prejudicando a própria família. Não abrem mão das bets, nem pela casa própria”, Anderson alerta.

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